sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ainda no quarto

Olho pela janela e de seguida olho para mim, nada me ocorre. Fecho os olhos e imagino-me alto e forte à beira mar correndo praia fora com as ondas a rebentarem junto aos pés esfriando-os assim numa corrida que parece não ter fim. Nem eu queiro que tenha.
Sinto o vento frio da manhã cortando-me a pele, sinto as pernas cansadas, o sangue ferve-me e ainda não consegui parar, estou a sentir algo muito libertador nesta agonia dolorosa de correr por correr, de sofrer pela simples essência do sofrimento, e de repente tudo começa a ficar para trás...O quarto, a cadeira de rodas, a minha mãe, o meu pai, a minha irmã, o meu reflexo no espelho. Difusões contorcidas que não quero agora recordar, estou a correr, estou a correr por elas, ou delas. É mais honesto dizê-lo assim. Sei apenas que na claridade da dissolução da minha identidade apenas sinto, não penso, não quero pensar, não quero analisar a realidade com base na interacção com os outros, quero apenas correr pelo acto de correr,não fugir, pois de nada há a fugir. Estou no vácuo, estou no intervalo da existência e sinto-me em casa, hóspede permanente da falha. Estou bem.

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