domingo, 19 de outubro de 2008

Ainda no quarto II

Corri, e corri, mas cansei-me. A falha estreitou-se e a realidade voltou sob a forma do bater na porta do quarto por parte da minha irmã. Queria saber se lhe queria fazer companhia, recusei.
Não me apetecia estar ali, tão realmente junto a alguém que constantemente me faz lembrar o que sou e donde venho, adoro-a mas estes exercícios de imaginação são o que ainda me sustêm numa sanidade aceitável, bateu e bateu, a praia já não era, o mar retrocedera aos confins das projecções, e ali fiquei novamente entregue à cadeira de rodas e à vista para a rua, essa avenida de mistérios onde as crianças brincam e as pessoas passam, essa promessa de viagem que não serei capaz de conhecer in loco, apenas nos sonhos, acordados ou não.
Gritei-lhe que me estava a preparar para dormir, o que é uma óbvia mentira pois são três da tarde e não tenho o hábito de fazer sestas, mas foi a maneira mais educada que tive de reagir, o espírito não leva a bem interrupções da sua ascendência, a mentira pareceu-me um modo rápido e indolor de descer à matéria sem fazer vítimas. Sobretudo inocentes que, por serem as mais fáceis são também aquelas que suscitam maiores doses de crueldade, algo predatório na detecção da fraqueza a isso o obriga, o flanco exposto e submisso desperta sempre uma voracidade temerária e por consequência, prazeirosa.
Infelizmente, não ficou convencida e insistiu. Merda! Quando a mentira não é suficiente o espírito sobressalta-se, reage como um animal em fuga e invariavelmente, assusta-se e ataca: NÃO QUERO SAIR,PORRA! DEIXA-ME!
Fui longe demais com este embuste, lá fora a minha irmã fungava pequenos choros, tal qual o inocente quando não percebe o porquê do ataque. Senti-me mal, não por tê-la feito chorar, mas por ter querido fazê-la chorar, por ser apenas este animal que não negoceia a sua zona de conforto, o seu território idílico, culpei-me por ser somente quem sou, e ao demais nem sequer reconhecer existência, e lá fora ouvia agora os seus frágeis passos a afastarem-se da minha porta, pesados com o fardo da rejeição incompreendida e sorri.
Diverti-me com a posibilidade de cortar amarras com tudo o que é simbólico e convencional, é isso, vou criar a minha própria ordem. As minhas convenções de relacionamento com o mundo, ele lá, eu sempre onde quer que esteja. Sem guião, sem pré aprendizagem, sem pré conceito, sem tudo, a não ser o momento e a vontade, boa ou má...Essa valorimetria já não cabe aqui!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ainda no quarto

Olho pela janela e de seguida olho para mim, nada me ocorre. Fecho os olhos e imagino-me alto e forte à beira mar correndo praia fora com as ondas a rebentarem junto aos pés esfriando-os assim numa corrida que parece não ter fim. Nem eu queiro que tenha.
Sinto o vento frio da manhã cortando-me a pele, sinto as pernas cansadas, o sangue ferve-me e ainda não consegui parar, estou a sentir algo muito libertador nesta agonia dolorosa de correr por correr, de sofrer pela simples essência do sofrimento, e de repente tudo começa a ficar para trás...O quarto, a cadeira de rodas, a minha mãe, o meu pai, a minha irmã, o meu reflexo no espelho. Difusões contorcidas que não quero agora recordar, estou a correr, estou a correr por elas, ou delas. É mais honesto dizê-lo assim. Sei apenas que na claridade da dissolução da minha identidade apenas sinto, não penso, não quero pensar, não quero analisar a realidade com base na interacção com os outros, quero apenas correr pelo acto de correr,não fugir, pois de nada há a fugir. Estou no vácuo, estou no intervalo da existência e sinto-me em casa, hóspede permanente da falha. Estou bem.