terça-feira, 19 de outubro de 2010

Acordar

Acordar é um acto que encerra em si uma violência inusitada. O corpo quando não tem consciência de si próprio é capaz das maiores façanhas, mas após a abertura das cancelas da visão, o impossível é votado à condição do seu nome.

Cancelado que está, surgem as limitações que o espírito não conhece. Amaldiçoado sarcófago que aprisionaste o não-limite. Pútrida carcassa que não permites a abolição das fronteiras em direcção ao Ideal.

Melhor dormir. Urgente dormir. Não me deixam adormecer. Sigo acordado, diminuído, castrado. Mas sigo...

sábado, 10 de outubro de 2009

Episódio curto

Tão curto como a minha estadia, todavia não posso deixar de contemplar a dúvida: estou aleijado, ou ESTOU aleijado?
Com esta afirmação pessoal fiquei bem. Posso então...dormir...

domingo, 19 de outubro de 2008

Ainda no quarto II

Corri, e corri, mas cansei-me. A falha estreitou-se e a realidade voltou sob a forma do bater na porta do quarto por parte da minha irmã. Queria saber se lhe queria fazer companhia, recusei.
Não me apetecia estar ali, tão realmente junto a alguém que constantemente me faz lembrar o que sou e donde venho, adoro-a mas estes exercícios de imaginação são o que ainda me sustêm numa sanidade aceitável, bateu e bateu, a praia já não era, o mar retrocedera aos confins das projecções, e ali fiquei novamente entregue à cadeira de rodas e à vista para a rua, essa avenida de mistérios onde as crianças brincam e as pessoas passam, essa promessa de viagem que não serei capaz de conhecer in loco, apenas nos sonhos, acordados ou não.
Gritei-lhe que me estava a preparar para dormir, o que é uma óbvia mentira pois são três da tarde e não tenho o hábito de fazer sestas, mas foi a maneira mais educada que tive de reagir, o espírito não leva a bem interrupções da sua ascendência, a mentira pareceu-me um modo rápido e indolor de descer à matéria sem fazer vítimas. Sobretudo inocentes que, por serem as mais fáceis são também aquelas que suscitam maiores doses de crueldade, algo predatório na detecção da fraqueza a isso o obriga, o flanco exposto e submisso desperta sempre uma voracidade temerária e por consequência, prazeirosa.
Infelizmente, não ficou convencida e insistiu. Merda! Quando a mentira não é suficiente o espírito sobressalta-se, reage como um animal em fuga e invariavelmente, assusta-se e ataca: NÃO QUERO SAIR,PORRA! DEIXA-ME!
Fui longe demais com este embuste, lá fora a minha irmã fungava pequenos choros, tal qual o inocente quando não percebe o porquê do ataque. Senti-me mal, não por tê-la feito chorar, mas por ter querido fazê-la chorar, por ser apenas este animal que não negoceia a sua zona de conforto, o seu território idílico, culpei-me por ser somente quem sou, e ao demais nem sequer reconhecer existência, e lá fora ouvia agora os seus frágeis passos a afastarem-se da minha porta, pesados com o fardo da rejeição incompreendida e sorri.
Diverti-me com a posibilidade de cortar amarras com tudo o que é simbólico e convencional, é isso, vou criar a minha própria ordem. As minhas convenções de relacionamento com o mundo, ele lá, eu sempre onde quer que esteja. Sem guião, sem pré aprendizagem, sem pré conceito, sem tudo, a não ser o momento e a vontade, boa ou má...Essa valorimetria já não cabe aqui!

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Ainda no quarto

Olho pela janela e de seguida olho para mim, nada me ocorre. Fecho os olhos e imagino-me alto e forte à beira mar correndo praia fora com as ondas a rebentarem junto aos pés esfriando-os assim numa corrida que parece não ter fim. Nem eu queiro que tenha.
Sinto o vento frio da manhã cortando-me a pele, sinto as pernas cansadas, o sangue ferve-me e ainda não consegui parar, estou a sentir algo muito libertador nesta agonia dolorosa de correr por correr, de sofrer pela simples essência do sofrimento, e de repente tudo começa a ficar para trás...O quarto, a cadeira de rodas, a minha mãe, o meu pai, a minha irmã, o meu reflexo no espelho. Difusões contorcidas que não quero agora recordar, estou a correr, estou a correr por elas, ou delas. É mais honesto dizê-lo assim. Sei apenas que na claridade da dissolução da minha identidade apenas sinto, não penso, não quero pensar, não quero analisar a realidade com base na interacção com os outros, quero apenas correr pelo acto de correr,não fugir, pois de nada há a fugir. Estou no vácuo, estou no intervalo da existência e sinto-me em casa, hóspede permanente da falha. Estou bem.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

Viagens

Por favor, permitam-me que me apresente, sou um homem que adora a viagem. Sou um homem que adora viagens. Sou um homem que sempre viveu para viajar. Dos cumes brancos e impolutos do Katmandu, às sujas vielas de Pequim, passando pela bela e velha Europa e desembocando na primacial África dos meus encantos, todas estas passagens fazem parte do que sou e do que há muito muito tempo sonhei ser, uma permanente deslocação e descoberta.
As histórias que me fazem companhia à noite são as viagens que realizei durante toda a minha vida, reneguei família, reneguei mulher, filhos não os quis, só quis o mundo, só quis Humanidade, apenas uma ténue hipótese de sentir-me parte integrante de um Mundo tão maior, tão mais complexo, tão mais velho que eu.
Sou tetraplégico desde nascença, na realidade nunca saí do meu quarto, mas li, mas vi, então vou imaginar, o que seria...o que poderia ter sido se...o que poderá um dia bem ser...
Como toda a viagem precisa de um roteiro começarei aqui, na terra que me viu nascer e não crescer, fisicamente, pois mentalmente sou um gigante, um titã que não será negado da última folia agora que as areias do tempo escorrem os derradeiros grãos. Amanhã...